quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Única Certeza



A morte leva a todos, sem distinção econômica, de beleza ou inteligência, é justa, nem mesmo nos distingue dos outros animais. A diferença é que junto com nossa racionalidade há grande sofrimento. A morte não se leva em consideração seus planos de vida, suas realizações ainda não feitas, pessoas importantes para alguém ou pessoas que delas dependem. Muitos médicos a veem como símbolo de sua impotência, e a família também o culpa -  isso se deve ao nosso pensamento de que a morte é antinatural. Perdendo pacientes é que nos damos conta de que não somos absolutos e somos finitos - olhar para a morte do outro também é olhar para a nossa própria morte ou para a dos nossos próximos, por isso assusta tanto.

A morte amedronta a muitos. Talvez esse medo venha pelo desconhecido, de ser apagado eternamente da existência, ou de viver eternamente em outro plano, sendo castigado pelos erros cometidos durante toda a vida. Mas o fato é que na maioria das vezes quem se castiga é quem fica e se arrepende mais do não vivido que do que foi vivido.
A existência por si só é carregada de dores, de arrependimentos, de frustrações e como dói ver alguém que gostamos deixar de existir! 
É difícil, mas tanto como médicos, quanto como cidadãos devemos reconhecer que todos temos o direito de partir, e, quando isto é inevitável devemos aprender a dar o suporte necessário para que essa pessoa acrescente vida aos seus dias, além de dar apoio aos que ficam. Dar  "a notícia" adequadamente à família é questão de sensibilidade, de empatia e fornecer conforto e humanidade.
Não devemos esquecer, que além da morte, a medicina celebra a vida. No seminário médico percebi sobre outra ótica que a morte é renovação, e ocorre a todo momento em nós e na natureza, preservando a beleza do mundo. É também para muitos a um alívio para o sofrimento do corpo e da alma (não deixemos de lembrar das pessoas que infelizmente tiram suas próprias vidas, e claro daquelas que a morte vem passivamente para aliviar o sofrimento).
Percebi que o que mais me dói não é a minha própria morte, é o medo do sofrimento e é o morrer de quem me cerca. E quanto aos pacientes espero fazer tudo o que posso, e quando não poder fazer mais nada, suspender minha "mediquez" e oferecer ao outro aquilo que me é mais precioso o meu tempo e afeto, meu lado humano.
De uma coisa eu sei, tenho que aceitar que um dia até eu me vou. Então eu quero morrer, mas com sentido, como muitos anos acrescentados a minha vida, deixando marcas nas vidas das pessoas que por mim passaram. Que seja leve e que eu deixe lágrimas (de saudade) e continue viva na mente de alguém.
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